Menos poético



Primeira parte


I


Mudanças noturnas


Um caminhão encosta em casa.

Um ladrão simula a farsa.

Esvazia-se a moradia.

Enche-se o caminhão antes do raiar do dia.


Acordam os moradores, num dia;

nada à vista, a sala vazia.

Onde esta minha mobília.


II


Marcelo


Por muito tempo ficou sobre pressão, Marcelo.

Sendo martelado entre a bigorna e o martelo.

De tanto ser martelado na vida,

tentou ser suicida.


De tanto lutar contra corrente,

deixou de ser crente.

E agora procura forma de matar-se.

Perdeu a esperança,

não tinha mais confiança.


Decidido a acabar com esse carma.

Viu-se aí sem calma.

Atou a corda no ventilador de teto.

Queria morrer reto,

sem sofrer mais nada.

A corda atada 

botou o pescoço na forca.


Mas que destino, a forca era podre.

E caiu no chão vivo. Amaldiçoou a forca podre.

Marcelo não morreu, voltou para bigorna e o martelo.

Ser martelado até virar diamante ou ser destruído.


III


Dedo-duro


Para um é o informante.

Para outro dedo-duro ou delator.

Mas sempre é o montante,

para não haver mais dor.


Ele é a reação,

por isso é condenado pelos sem ação.


IV


O violeiro preso


Sabe-se que este poema é autobiográfico.

Pois fico preso por causa do trafico.

De noite não se sai mais nas calçadas.

As portas e janelas são fechadas e trancadas.


Não cometi nenhum crime. Não estou em nenhuma lista.

Mesmo assim sou um judeu no regime nazista.

Se os traficantes encontrarem-me,

logo futuro não terei.


Sabe-se que vigiam minha morada.

Aos meus vizinhos eles preparam emboscada.

Roubam tudo de um povo mudo.


Sou o violeiro preso em casa.

A cada dia vejo que o Estado é uma farsa.

Não temos moral para pedir segurança.

Acabando já esta a esperança.


Aqui é uma área de risco e perigo. (por dia estou vivo)

Onde as únicas coisas que soam e minha viola

e os revolveres dos bandidos.

Da policia nenhum tiro.


V


A fazenda e o jornalista


Foi-se um dia um jornalista,
percorrer o país feito turista.

Meteu-se no Mato Grosso,

lugar de duro osso.


Fazendeiro é que manda nesse Estado.

Paga policia e tem tudo planejado.

Fazendeiro lá é rei e também lei.


Por que o dinheiro compra tudo

de autoridade até informante faz mudo.

Foi-se o jornalista lá, para reunir informação.

O fazendeiro chamou os capangas para tomar ação.


- “manda este jornalista para longe daqui”.

O jornalista obstinado disse - “ eu fico aqui”.


Ouve tiro e o jornalista foi embora,

já em boa hora.

Mais uma vez a ignorância

atrapalha a pesquisa acadêmica tudo por arrogância.


VI


Bala perdida


Aqui não existe muito,

mas sei um lugar onde há muito.

Sim, a bala desce o moro.

Atingindo prédios e casas abaixo do moro.


A noite se não fosse perigoso,

seria prazeroso,

vê-las passando no ar.

Deixando linhas vermelhas no ar.


É uma tempestade violenta

de morte rápida, não lenta.

Elas riscam o céu

sem deixar, culpado ou réu.

Balas perdidas

são balas ardidas

na pele dos inocentes.


VII


Cão abandonado


Nas férias todos não a praia.

Só que os cães nem sempre vão para praia.

São em casas abandonados

ou na rua tocados.


É uma crueldade feita pelo dono.

Para um animal que o amava.

Somente para não ter de cuidar

de sua obrigação .

De o animal tratar.


VIII


14 léguas


Só 14 léguas separam a guerra

na Palestina, de uma trégua.

14 léguas existem entre o oriente

e o ocidente.


Essa distância é que há entre o narcotráfico;

e as estatísticas de morte em gráfico.

14 léguas dividem os padrões sociais;

e os parâmetros mundiais.


14 léguas dividem cristão de muçulmano;

e o fiel do ateu.

14 léguas dividem o que é deles do que é seu.

14 léguas dividem um ano novo de um feliz ano.


Se você refletir tudo é uma questão de distância.

Que merece relevância.


IX


Uma vírgula faz diferença


Conta-se que há muito tempo, 

um rei enviou uma mensagem para cancelar uma execução.

Mas um pingo de tinta caiu no papel é quando o carrasco

leu a mensagem, ele leu “não, executem”;

em vez de “não executem”.

E ele acabou executando o prisioneiro.


X


O cartel


-  “você sabia que não há concorrência aqui.”

- “vai pagar por vender a mercadoria aqui.”

- “calma eu não vendo mais a mercadoria.”

- “é tarde para arrependimento. Do perigo, você sabia.”

- “ mas foram só umas pedras vendidas.”

- “amigo é final de sua vida.”


Disse o homem arrumando as balas no revolver.

O outro fechou os olhos e nem queria ver.

- “eu devolvo tudo, por favor não atire,

largue a arma, vamos conversar, não mire.”

- “ desculpe, mas se deixar você vivo,

é eu que não sobrevivo.

Uma leve pressão no gatilho.

Saí um tiro sem filho.

A bala atravessa o coração,

uma morte de supetão,

sem reação.


Segunda parte


I


Um velho


Jovem minha cabeça calva,

trás mais respeito que sua pele alva.

Minha ruga contém mais sabedoria

que sua vaidade e alegoria.

Meus olhos tem mais sofrimento

que todos os seus sentimentos.

Sou velho e sei o que você ignora;

já passei por toda essas horas.


II


Consulta


- "oi, meu nome é José, quero uma consulta

com doutor Carlos Nazaré."

- "ah sim, seu nome é Josué e um quer uma consulta

com doutor Carlos Nazaré."

- "não meu nome é J-O-S-É

- "tá, entendi, sem estresse Sr. José

Duas horas depois...

- "o Sr. Josué"

- "Não adianta desisto, sou eu."



III


O belo canto do cisne


Era uma vez um garoto pianista,

juro que Mozart e Bizet se vivos;

inveja dele teriam. Ele era um excelente pianista.

Sua voz angelical nunca vista em um ser vivo.


Seu pai somente dizia:

"meu filho vai ser advogado".

Não dava a mínima para o talento do novato.

Eram as leis que o pai cobrava.

O garoto sentia-se triste e não achava

que o pai não o amava.


Sua mãe dizia "é o jeito do seu pai".

Eis que um dia ele se revoltou.

Queria ser musico. Leis estudar, não vou.

O pai iria mandá-lo para um internato.


Eis que um dia o pai acorda de noite.

Ouve uma musica vindo do quarto do menino.

Quase trágica e depois silêncio. Seu pai

prevendo o pior. Entra no quarto e ali morto

estava o menino.


IV


Sobre Arte


Um dia estando eu a caminhar.

Roubaram-me meus versos.

Eu disse ao ladrão "é com eles que converso".

O ladrão respondeu "você não quer me irritar".


Entreguei meus versos.

Depois de noite escrevi outros versos.

Ficaram melhores, mais vivos.

Assim é a arte dos homens vivos.


Ás vezes nossa arte é destruída.

Sim, mas é para ser mais bem reconstruída.

Deixe as chamas a consumir,

para depois melhor as reproduzir.


Nem tudo que sai da cabeça é arte.

Entretanto podemos tirar uma parte.

Sendo que essa parte é arte ou lixo.

Exprima tudo do crânio;

depois analisamos se é arte ou lixo.


V


Presidenta não me tenta


O latim é uma língua arcaica,

mas dela desenvolve-se muitas palavras laicas.

Presidente é uma delas, "ele é aquele

que coloca-se á frente. Não tem gênero.

Não interessa se o presidente é ela ou ele.


VI


Um certo inimigo


Um dragão preparou uma emboscada;

queria acabar com minha morada.

Pretendia destruir minha terra amada.


Então desceu do céu colocou fogo

nas casas de minha cidade.

Colocou discórdia nas amizades.

Trouxe cinza, mortalha e fogo.


Rezei por quinze dias e noites.

Até a lua mudar seu foice.

Chorei minhas perdas e tristezas.

Clamei um herói para fazer proezas.


Do céu só caiu um machado.

Então entendi; o herói tinha achado.

Era eu que ia matar essa besta.


Tive mais sorte que outros homens,

os quais procuram este homem que por eles lutará.


VII


Leitor


Aquiles preciso de sua ousadia.

Odisseu preciso de seu senso de direção.

Jasão preciso de sua força.

Ajuda-me Cacambo e Sépe Tiaraju.


Preciso de vocês heróis do mundo.

Mesmo sabendo que vocês estão em mim.

Todos estão em minha cabeça.

Sim, eu os li. Sou um canibal.

Li eles, devorei-os e comi suas vidas.

Tenho no meu corpo suas vitórias, idas e vindas.


Existem outros canibais como eu,

que mataram estes heróis e os comeram.

Eu fiz isso mil vezes "li, reli e releu."

Fiz a vida deles minha e em mim renasceram.


Então eles devem agradecer este canibal.

Por fazer um ato tão bestial.

Por que agora somos um só herói e leitor.


VIII


Poema murmurado


Como sabemos esmolar não é crime.

Um morador de rua não se reprime.

Nem somos melhores que eles.

Por que o julgamento divino e o mesmo dele.


O verdadeiro samaritano faz caridade

sem demonstrar vaidade.

Por que um rei esmola na rua,

este sábio rei e que julga alma tua.


IX


Poema - Poemática


Ora sem  neologismo não há graça.
Sei escrever de maneira culta.

Mas deste jeito a vida torna-se turva.

Para ser poema é necessário ter graça.


Tem que fazer sentido e como engrenagem.

Por isso vou usar sempre neologismo,

hipérbole, onomatopeia e todos os ...ismo.

Tem que ter figuras de linguagem.


X


Ponto final


Esta terminada esta antologia.

Sem vírgula, nem travessão.

É o final da seleta.

Sei que andei em círculo não em reta.

Sei que cai em contraversão.

Mas isso não muda minha "logia".

Minha obra, isso não deleta.


Mais tarde pretendo ser melhor.

Hoje me satisfaço em não ser pior.

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